Apresentação

A Semana Santa de Santa Maria da Feira constituiu um dos momentos mais profundos e identitários da nossa vida coletiva. Não apenas pela riqueza do seu programa religioso, cultural e artístico, mas sobretudo pela capacidade que tem de mobilizar a comunidade, de convocar a memória, a fé e a identidade de um território que se reconhece na profundidade do Mistério Pascal.

Em 2026, essa vivência coletiva ganha um significado particular ao eleger como figura central Maria, mãe de Jesus, na expressão humana e universal da sua dor. Ao colocar no centro da reflexão a Senhora das Dores, esta edição da Semana Santa convida-nos a olhar o Mistério Pascal a partir de uma perspetiva profundamente humana. Maria representa todas as mães que sofrem, todos os corações feridos pela perda, pela injustiça, pela violência e pela incompreensão. A sua presença silenciosa junto da cruz torna-se símbolo de resistência interior, de fidelidade e de esperança que não se extingue, mesmo quando tudo parece perdido.

A dor de Maria não é apenas um dado religioso; é uma linguagem universal que atravessa culturas, tempos e sensibilidades. É essa a dimensão que faz da Semana Santa de Santa Maria da Feira um acontecimento que ultrapassa o estritamente confessional e se afirma como património cultural vivo, através da arte, da música, do teatro, do património, da palavra e do gesto comunitário.

O vasto programa que integra esta Semana Santa reflete essa riqueza e diversidade. Concertos, exposições, recriações históricas, percursos patrimoniais, celebrações litúrgicas e manifestações de religiosidade popular constroem um itinerário coerente, onde a dor, a compaixão e a esperança se entrelaçam.

Merece especial destaque a realização de uma conferência dedicada à revitalização de tradições religiosas quaresmais que, com o passar do tempo, se foram esbatendo ou perderam na vivência comunitária. A conferência ganha ainda maior profundidade com a participação de elementos provenientes de Idanha-a-Nova, portadores de uma tradição ritual viva e reconhecida. A presença destes representantes reforça a dimensão interterritorial de Santa Maria da Feira e sublinha o seu papel enquanto espaço de partilha cultural e de reflexão alargada. A participação de um investigador de reconhecido mérito confere rigor científico e densidade interpretativa a este momento.

Santa Maria da Feira assume, assim, a Semana Santa como um tempo privilegiado de valorização do seu património material e imaterial, mas também como um momento de afirmação da comunidade enquanto espaço de partilha e pertença. A forte participação das instituições religiosas, culturais e associativas, bem como o envolvimento dos artistas, investigadores e voluntários, demonstra a vitalidade de um projeto coletivo construído com dedicação e sentido de missão.

O Município de Santa Maria da Feira reafirma o seu compromisso com esta celebração, reconhecendo nela um fator de coesão social, de promoção cultural e de projeção do território. Desejo que esta Semana Santa de 2026 seja, para todos, um tempo de encontro consigo próprios, com os outros e com a história que nos une. Que através do olhar materno e sofrido de Maria, possamos compreender melhor o sentido da dor, da solidariedade e da esperança que nasce da Ressurreição.

Amadeu Soares Albergaria
Presidente da Câmara Municipal de Santa Maria da Feira

Nesta edição da Semana Santa de 2026, ao contemplar os Mistérios da Paixão, Morte, Sepultura e Ressurreição de Jesus, queremos meditar também em Maria, a Senhora das Dores, que cooperou na obra salvífica de Jesus. Como nos recorda o Concílio Vaticano II, “assim avançou a Virgem pelo caminho da fé, mantendo fielmente a união com seu Filho até à cruz. Junto desta esteve, não sem desígnio de Deus, padecendo com o seu Filho único, e associando-se, com coração de mãe, ao Seu sacrifício; finalmente, Jesus Cristo, agonizante na cruz, deu-a por mãe ao discípulo, com estas palavras: ‘Mulher, eis aí o teu filho’.” (Lumen Gentium, 57)

No tempo quaresmal e Semana Santa de Santa Maria da Feira, a Mãe Dolorosa, esse coração materno, compassivo e misericordioso, ferido pela dor de ver o seu divino Filho trespassado pelos pecados da humanidade, será o elemento congregador ao longo do caminho de preparação para a Páscoa da Ressurreição: quer a de Jesus, nosso Cordeiro Pascal, quer a interna de cada crente.

O Velho Simeão, ao contemplar Maria com o seu pequeno e frágil bebé ao colo, logo vaticinou um futuro sombrio: “Uma longa e Fria espada de dor atravessará o Teu peito” (Lucas 2, 35).

Maria é a Mulher do SIM. Nos tempos que vivemos, onde os conflitos nascem com mais rapidez do que se geram concórdias, e onde as discussões se vencem não pela razoabilidade da argumentação, mas pela violência, precisamos de redescobrir a Mulher que apenas disse “SIM” aos insondáveis desígnios de Deus, nunca duvidando. Não vacilou nem abandonou o seu destino. Maria é o exemplo perfeito da Mulher e Mãe que tudo crê, tudo espera, tudo suporta.

Quem, de nós, não sonha com o colo desta boa e terna Mãe? “A Virgem é invocada na Igreja com os títulos de advogada, auxiliadora, socorro, medianeira. Mas isto entende-se de maneira que nada tire nem acrescente à dignidade e eficácia do único mediador, que é Cristo.” (Lumen Gentium, 62).

Viver a Semana Santa de 2026 é um convite meditar numa das mais belas orações marianas do séc. XIII, perdida nas vicissitudes do tempo, mas que, para nós, será farol norteador. Pensar a Páscoa deste ano, é contemplar o Mistério Pascal pelo olhar da materno da Senhora das Dores. Por Maria, até Jesus!”

Daniel Nunes da Mota
Coordenador da Semana Santa de Santa Maria da Feira